Filosofia e Propósito· Virtudes e Caráter
Sócrates: quem foi e o método de perguntas, com exemplo
"Eu uso essa palavra o tempo todo, mas, se você me perguntar o que ela quer dizer, não sei responder." Quem toca um negócio já disse isso sobre qualidade, profissionalismo ou cliente satisfeito. Sócrates passou a vida fazendo essa pergunta a outras pessoas.
Este guia é do filósofo ateniense, não do jogador de futebol que divide a busca com ele. Mostra quem foi Sócrates, por que foi condenado e como funciona o método de perguntas, com um diálogo real e um exemplo de pequena empresa. Para o tema vizinho, a ética, veja o que é ética.
Sócrates: quem foi, em uma resposta
Sócrates foi um filósofo ateniense que viveu de 469 a 399 a.C. e não escreveu nada. A Stanford Encyclopedia of Philosophy (SEP) o descreve como alguém que, apesar de não ter deixado texto, é um dos poucos filósofos que mudaram para sempre a forma de conceber a própria filosofia. Tudo o que sabemos dele é de segunda mão, e boa parte é contestada.
As fontes antigas são três: Aristófanes, que o satirizou nas comédias, Xenofonte e Platão. A SEP lembra que, mesmo entre quem o conheceu em vida, havia "profound disagreement about what his actual views and methods were": profundo desacordo sobre quais eram suas ideias e seus métodos. Por isso, quando este guia diz "o método de Sócrates", fala do que o Platão mostra nos diálogos.
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A vida de Sócrates em datas confirmadas
A vida dele cabe em poucas datas que a SEP sustenta.
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 469 a.C. | Nasce no distrito ateniense de Alopece, filho de Sofronisco, que trabalhava com pedra |
| 423 a.C. | Aristófanes encena As Nuvens, que ridiculariza Sócrates e fica em terceiro lugar no concurso |
| Maio–junho de 399 a.C. | Julgamento, no mês de Targelião |
| Cerca de 30 dias depois | Execução, se Xenofonte estiver certo sobre a duração da viagem sagrada a Delos |
Na época do julgamento, Platão tinha cerca de 25 anos, segundo a SEP. Sócrates não cobrava por conversar: a SEP diz que ele "refused all his life to take money for what he did", recusou a vida inteira receber dinheiro pelo que fazia. Na Apologia ele chama a própria pobreza de prova: "my poverty is a sufficient witness". Em português: minha pobreza é testemunha suficiente.
Por que Sócrates foi julgado e condenado
Sócrates foi acusado de impiedade: a SEP resume que ele não acreditaria nos deuses de Atenas, introduziria novas divindades e, com isso, corromperia os jovens. O acusador foi Meleto. O júri o considerou culpado e, na votação da pena, o condenou à morte.
Na Apologia, Sócrates conta como virou alvo. Um amigo, Querefonte, perguntou ao oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio. A resposta, nas palavras dele: "there was no man wiser". Em português: não havia homem mais sábio. Ele não aceitou de imediato: "I know that I have no wisdom, small or great", sei que não tenho sabedoria, pequena ou grande. Foi então testar a resposta, procurando alguém mais sábio, e saiu criando inimigos.
Um amigo de infância, Críton, tentou convencê-lo a fugir da prisão. Sócrates recusou.
No diálogo Críton, ele diz ser alguém que "must be guided by reason, whatever the reason may be which upon reflection appears to me to be the best": deve ser guiado pela razão que, depois de refletir, lhe pareça a melhor.
Na Apologia, a última fala é: "The hour of departure has arrived, and we go our ways - I to die, and you to live. Which is better God only knows." Em português: chegou a hora de partir, eu para morrer, vocês para viver; qual é melhor, só o deus sabe.
Ao resumir o Fédon, a SEP registra que o encarregado do veneno descreveu os efeitos da cicuta usada nas execuções de cidadãos, a variedade Conium maculatum, e que Sócrates "cheerfully took the cup and drank": tomou o cálice e bebeu de bom ânimo.
O método socrático em 5 passos, no Eutífron
O método socrático, nos diálogos de Platão, é pedir uma definição e testá-la com perguntas. O Eutífron mostra isso em ação. Sócrates, indiciado por Meleto por impiedade, encontra Eutífron, que acusou o próprio pai de homicídio e tem fama de saber muito bem o que é piedade. Sócrates pergunta: "And what is piety, and what is impiety?" Em português: e o que é a piedade, e o que é a impiedade?
A SEP também registra que ele comparava o seu trabalho ao da parteira e que tinha fama de ironia: dizia que nada sabia de importante e queria ouvir os outros, mantendo a condução da conversa. Os cinco passos abaixo são a minha leitura do diálogo, não uma lista da SEP.
Passo a passo
- Pergunte "o que é X?". No Eutífron: "o que é a piedade?"
- Peça a ideia geral, não exemplos.
- Escreva a definição como padrão para medir casos.
- Teste com uma pergunta que a definição precisa responder.
- Aceite o resultado, mesmo que seja voltar ao ponto de partida.
Passo 1: a pergunta. Eutífron responde com um exemplo: "Piety is doing as I am doing", a piedade é fazer o que eu faço, isto é, processar quem cometeu um crime, seja o próprio pai. Em português, ele deu o que faz, não o que é.
Passo 2: a ideia geral. Sócrates devolve: "I did not ask you to give me two or three examples of piety, but to explain the general idea which makes all pious things to be pious". Em português: não pedi dois ou três exemplos de piedade, mas que explicasse a ideia geral que faz piedosas todas as coisas piedosas.
Passo 3: o padrão. Com a ideia em mãos, "I shall have a standard to which I may look, and by which I may measure actions", terei um padrão para olhar e com o qual medir ações. É a imagem deste guia: uma régua escrita, não uma opinião.
Passo 4: o teste. Eutífron propõe então que piedoso é o que é caro aos deuses. Sócrates pergunta se "the pious or holy is beloved by the gods because it is holy, or holy because it is beloved of the gods": o piedoso é amado pelos deuses porque é piedoso, ou é piedoso porque é amado por eles?
Passo 5: o resultado. O argumento volta: "the argument, as you will perceive, comes round to the same point", chega ao mesmo ponto. Eutífron diz que tem pressa e vai embora; o diálogo termina sem definição aceita.
Infográfico

Ler o infográfico em texto
Tirado do diálogo Eutífron, de Platão, com a pergunta de cada passo
- Pergunte: O que é a piedade?
- Peça a ideia geral: Não dois ou três exemplos.
- Escreva o padrão: Uma régua para medir casos.
- Teste: É amado porque é piedoso, ou o contrário?
- Aceite o resultado: O argumento volta ao ponto de partida.
Fonte: Platão, Eutífron, trad. Benjamin Jowett (Internet Classics Archive, MIT); leitura dos passos pela Consylion. Os cinco passos são uma leitura da Consylion do diálogo, e não uma classificação da Stanford Encyclopedia of Philosophy.
"Só sei que nada sei": o que Sócrates disse na Apologia
A frase de resumo mais repetida sobre Sócrates é "só sei que nada sei". Na tradução de Jowett da Apologia, ela não aparece. O que o texto traz, depois do primeiro teste com um político que passava por sábio, é isto: "I am better off than he is - for he knows nothing, and thinks that he knows. I neither know nor think that I know." Em português: estou melhor do que ele, pois ele não sabe nada e acha que sabe; eu nem sei nem acho que sei.
Mais adiante, ele interpreta o oráculo: a sabedoria dos homens "is little or nothing", vale pouco ou nada, e o mais sábio é quem, "like Socrates", sabe que "his wisdom is in truth worth nothing": que sua sabedoria não vale nada.
Neste trecho o que aparece é um método: ele testa quem diz saber, e o que afirma saber de si, sobre a sabedoria humana, é pouco ou nada. Descreve o ofício assim: "if he is not wise, then in vindication of the oracle I show him that he is not wise". Em português: se não é sábio, em defesa do oráculo mostro a ele que não é sábio.
Diante dos juízes, ele se compara a uma mutuca: "a sort of gadfly, given to the state by the God", uma espécie de mutuca dada à cidade pelo deus, que a cidade, como um cavalo grande e lento, precisa que alguém desperte. E explica por que não pararia de perguntar, mesmo sob ameaça: "the life which is unexamined is not worth living", a vida sem exame não vale a pena ser vivida. A SEP localiza essa última frase na Apologia 38a.
Infográfico

Ler o infográfico em texto
Sobre o que Sócrates sabia, na tradução de Jowett
Sobre o que ele sabia
"Só sei que nada sei" (Frase de resumo, sem obra)
- Na Apologia (Jowett): Não aparece
- Sem obra: este guia não a cita
Apologia (Tradução de Jowett)
- O político: Acha que sabe
- Sócrates: Não acha que sabe
- Testar: ele examina quem diz saber
Fonte: Platão, Apologia, trad. Benjamin Jowett (Internet Classics Archive, MIT); tradução pela Consylion
A regra deste guia é citar só o que tem obra e trecho. Frase sem obra não entra.
Exemplo: um estúdio de fotografia em Belo Horizonte
Imagine um estúdio de fotografia fictício, em Belo Horizonte, com números redondos. O dono quer "clientes satisfeitos" e define a palavra assim: satisfeito é quem não reclamou. No ano, o estúdio atendeu 50 clientes. Três reclamaram.
Primeiro, a conta da definição dele. Sem reclamação: 50 − 3 = 47 clientes, ou 47 ÷ 50 = 94%. Parece ótimo. Aí vem o passo 4, o teste: se satisfeito significa alguém que fica contente, o que mais esse cliente faz? Ele volta a contratar. Naquele ano, 14 clientes voltaram.
Exemplo com números
Estúdio de fotografia em Belo Horizonte · duas definições de "satisfeito"
| Definição | Clientes | Percentual dos 50 |
|---|---|---|
| Não reclamou | 47 | 94% |
| Voltou a contratar em 12 meses | 14 | 28% |
| Não reclamou e não voltou | 33 | 66% |
Números de exemplo fictício. Troque pelos seus.
A terceira linha sai de 47 − 14 = 33, supondo que os 14 que voltaram estão entre os 47 que não reclamaram; 33 ÷ 50 = 66%. A definição "não reclamou" mede silêncio, não satisfação. Com o padrão escrito, o dono pergunta: o que impede esses 33 de voltarem? A pergunta pode ser preço, prazo, falta de contato depois da entrega. A conta não responde; ela mostra onde perguntar. É um exemplo de método, sem resultado prometido.
Erros comuns ao usar o método de Sócrates
- Usar a pergunta para ganhar discussão. A SEP nota que a ironia dele mantinha a condução da conversa, e isso pode virar jogo de poder. Correção: comece perguntando a si mesmo, como ele faz na Apologia ao dizer que nem sabe nem acha que sabe.
- Citar frase sem obra. Correção: procure a passagem na edição antes de repetir.
- Pedir exemplos em vez de definição. Eutífron deu o que fazia, e Sócrates devolveu a pergunta. Correção: escreva "X é ..." em uma frase.
- Esperar uma resposta pronta. O Eutífron termina sem definição aceita. Correção: trate a dúvida como resultado e escolha o próximo teste.
- Usar o método com quem sofre. Perguntas em série não são terapia. Correção: se a decisão envolve sofrimento forte, procure um profissional.
Exercício de 15 minutos: defina uma palavra antes de decidir
O critério é da Consylion; Sócrates não propõe esta lista.
Passo a passo
- Escolha uma palavra que você usa numa decisão que está pendente (qualidade, justo, profissional).
- Escreva "X é..." em uma frase, sem exemplos.
- Pense num caso real e pergunte se a definição o classifica como você esperava.
- Se não, reescreva a definição.
- Marque uma ação para amanhã com base na definição nova.
Mão na massa · 30 minutos
Defina uma palavra antes de decidir
- Minutos 0 a 5: escolha a palavra e escreva a definição em uma frase.
- Minutos 5 a 12: teste com dois casos reais e anote onde a definição falha.
- Minutos 12 a 15: reescreva a definição e marque uma ação para amanhã.
- Pronto quando: a definição cabe em uma frase, já foi testada com um caso real e deu origem a uma ação com data.
O estoicismo também treina o hábito de examinar uma ideia antes de agir. Se quiser conhecer o discípulo de Sócrates que deixou os diálogos, comece por Platão. Hoje, só isto: escolha a palavra e escreva a definição.
Antes de decidir, escreva o que a palavra significa.
Padrão Consylion de aconselhamento
Como usar este conselho
- De onde vem
- Apologia, Eutífron e Críton, de Platão, na tradução de Benjamin Jowett (Internet Classics Archive, MIT), e o verbete Socrates da Stanford Encyclopedia of Philosophy (revisão de 26/05/2022). Os trechos em português são tradução da Consylion a partir do inglês. Os cinco passos são minha leitura do Eutífron; a Stanford não os apresenta como método fechado. As 5 fontes estão listadas no fim do artigo.
- Quando se aplica
- Adulto que quer conhecer Sócrates e entender o que é o método socrático.
- Dono de pequeno negócio que usa palavras como qualidade, profissional ou cliente satisfeito sem ter dito o que elas significam.
- Limites
- É conteúdo educativo. Perguntar para examinar uma decisão não é terapia nem substitui acompanhamento profissional.
- Não é orientação religiosa: o oráculo de Delfos e a voz interior de Sócrates aparecem como relato dos textos, sem comparação com crença alguma.
- O estúdio do exemplo é fictício, com números redondos, e a conta não prova resultado para nenhum negócio real.
- Dúvida jurídica ou contratual com um cliente pede advogado.
- Na prática
- Uma palavra da sua decisão, uma folha de papel e 15 minutos.
- Como medir o resultado
- Em 7 dias: ao menos duas palavras da sua rotina com definição escrita em uma frase.
- Em 30 dias: quantas decisões você tomou depois de testar a definição com um caso real.
- Quando revisar
- A tradução ou a edição citada mudar ou for corrigida.
- A Stanford Encyclopedia of Philosophy revisar as datas ou a cronologia do julgamento.
Última revisão em .
Perguntas frequentes
- Sócrates, Platão e Aristóteles: qual a relação entre eles?
- Sócrates foi o mais velho. Platão tinha cerca de 25 anos quando Sócrates foi julgado e executado, segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, e o fez personagem dos diálogos citados neste guia. Aristóteles foi a Atenas por volta dos 17 anos para estudar na Academia de Platão. Cada um tem guia próprio aqui: veja [Platão](/artigos/platao) e [Aristóteles](/artigos/aristoteles).
- Sócrates escreveu algum livro?
- Não. A Stanford Encyclopedia of Philosophy diz que ele não escreveu nada e que tudo o que sabemos vem de relatos de terceiros. As três fontes antigas são Aristófanes, que o satirizou em comédias, Xenofonte e Platão. As três divergem em pontos importantes, e por isso a figura histórica é discutida.
- O que é a ironia de Sócrates?
- Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, a ironia de Sócrates consistia, no mínimo, em dizer que não sabia nada de importante e queria ouvir os outros, enquanto mantinha a condução de cada conversa. O que ela significa exatamente é discutido pelos estudiosos, e este guia não adota uma única leitura.
- Por onde começar a ler Sócrates?
- Eu começaria pela Apologia, a defesa dele no tribunal, que é curta e traz o oráculo e a vida examinada. Depois o Eutífron, para ver o método em ação, e o Críton, sobre a recusa de fugir. Procure edição em português com tradutor nomeado e notas, e confira na edição qualquer frase que for citar.
Quem escreveu
Fundador da Consylion e criador do Protocolo Consylion™
Li mais de 2.000 livros de negócios e reuni nos manuais da Consylion os métodos que uma pequena empresa consegue aplicar. Aqui, escrevo o passo a passo para você usar no seu negócio, com exemplos e a fonte de cada número.
Como produzimos este conteúdo
A pauta parte das dúvidas reais de quem toca uma pequena empresa e dos métodos dos manuais Consylion. O texto é escrito com apoio de inteligência artificial e segue o padrão editorial da Consylion: cada número, regra e citação vem de uma fonte confiável (órgãos públicos, normas, leis e pesquisas com metodologia publicada), aberta e conferida, e está listada no fim do artigo; o que não pode ser verificado não entra. Os exemplos com números são ilustrativos e estão identificados como tal. Quando surgem dados melhores ou as regras mudam, o artigo é revisado. Última revisão em . Leia a política editorial completa.
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Fontes citadas
- 01 Stanford Encyclopedia of Philosophy. Socrates (revisão substantiva de 26/05/2022)
- 02 Stanford Encyclopedia of Philosophy. Aristotle (vida de Aristóteles e a Academia)
- 03 Platão. Apologia, trad. Benjamin Jowett, Internet Classics Archive (MIT)
- 04 Platão. Eutífron, trad. Benjamin Jowett, Internet Classics Archive (MIT)
- 05 Platão. Críton, trad. Benjamin Jowett, Internet Classics Archive (MIT)
